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Prever resultados de futebol é sorte ou perícia?

Por Uncle Predictor · Publicado a

Jogo de pontos, não é aposta a dinheiro. O Uncle Predictor não envolve dinheiro, não aceita depósitos e não distribui prémios monetários. Nada nesta página é aconselhamento de apostas.

É a discussão que aparece em todos os grupos no fim de uma competição: o vencedor percebe mesmo de futebol ou teve sorte? Temos 46 pessoas, 104 jogos e 4 305 previsões para tentar responder — e a resposta honesta é mais interessante do que um sim ou um não.

A dispersão

Escala mostrando a percentagem de resultados exatos por participante: pior 3,6%, mediana 9,6%, melhor 21,1%

Resultados exatos acertados
Melhor participante21,1%
Mediana9,6%
Média9,5%
Pior participante3,6%

O melhor participante acertou mais do dobro do que a mediana e quase seis vezes mais do que o último. Ao fim de cem jogos, isso é uma diferença muito grande.

Podia ser sorte?

É a pergunta certa a fazer, e há uma forma simples de a atacar. Imaginemos que ninguém tem qualquer perícia e que cada previsão acerta com a mesma probabilidade de 9,5%. Com 46 pessoas a fazer cerca de cem previsões cada, quanto é que o melhor de todos acertaria só por acaso?

A conta é a de uma distribuição binomial. Com 100 tentativas a 9,5% cada, o desvio-padrão anda pelos 2,9 pontos percentuais. Para chegar aos 21,1% seria preciso estar cerca de quatro desvios-padrão acima da média — e com 46 pessoas na amostra, o máximo esperado por puro acaso andaria à volta dos 16% a 17%.

Ou seja: 21,1% é mais do que a sorte costuma produzir num grupo deste tamanho, mas não está astronomicamente fora do alcance. É um sinal, não uma prova.

O que estes dados não conseguem fazer. Um único torneio não distingue "esta pessoa prevê melhor" de "esta pessoa teve um bom torneio". A única forma de separar as duas coisas é ver se os mesmos nomes ficam à frente em várias competições seguidas — e para isso precisamos de mais épocas do que temos.

O que sabemos que é perícia

Há uma parte da resposta que não depende de estatística fina, porque já a vimos noutros números deste mesmo torneio.

Sabemos que os empates foram subestimados em cerca de um terço e que o 0-0 apareceu 4,4 vezes menos nas previsões do que na realidade. Isto significa que existia um erro sistemático à disposição de quem o quisesse corrigir. Corrigi-lo não é sorte: é olhar para a distribuição e ajustar.

Sabemos também que a taxa de acerto nos jogos com Joker foi de 9,6% — exatamente a média geral. Se as pessoas soubessem identificar os jogos que conhecem melhor, esse número seria mais alto. Não é. Há aqui uma competência que praticamente ninguém está a exercer.

E sabemos que 32 dos 104 jogos não tiveram um único acerto. Cerca de um terço do torneio era território onde nenhuma perícia adiantava.

A resposta em três partes

  1. Uma parte grande é irredutivelmente sorte. Um terço dos jogos não foi acertado por ninguém. Um 7-1 ou um 4-6 não se preveem, e quem por acaso lá chegar não repete.
  2. Uma parte é perícia de futebol. Saber que equipa está a marcar, quem está lesionado, que treinador fecha o jogo. É a parte que toda a gente pensa quando ouve a pergunta.
  3. Uma parte — provavelmente a mais rentável — não é sobre futebol de todo. É perceber a distribuição dos resultados, não escrever 2-1 por defeito, respeitar os empates e escolher o Joker com critério. Nada disto exige ver mais jogos.

A terceira parte é a que explica melhor por que razão alguém pode ficar à frente de pessoas que percebem mais de futebol. Não é conhecimento — é método.

Como testarias isto a sério

Se quiséssemos responder à pergunta com confiança, o desenho seria este: seguir os mesmos participantes ao longo de três ou quatro competições e verificar se a posição no ranking se correlaciona entre elas. Se quem ficou no topo do primeiro torneio tender a ficar acima da mediana nos seguintes, há perícia. Se a ordem for aleatória de cada vez, era sorte.

É exatamente isso que vamos poder medir a partir da próxima época, com a Premier League e a Champions a decorrerem em simultâneo. Voltaremos a este artigo quando houver dados para o fazer.

Ressalvas

Foram considerados apenas os 46 participantes com 30 ou mais previsões registadas. O cálculo da probabilidade assume que todos os jogos são igualmente difíceis, o que não é verdade — como mostrámos, há jogos que ninguém acerta e outros que quase metade acerta. Essa variação torna a estimativa por acaso menos fiável do que o cálculo simples sugere.

E, mais uma vez: um torneio não chega. Este artigo mostra o que os dados permitem dizer, e diz também o que não permitem.


Dados: 104 jogos, 4 305 previsões e 46 participantes do Mundial 2026 registados no Uncle Predictor. Apurados a 10 de agosto de 2026.

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